Pedi para o Amor não procurar-me mais, pedi pra que me deixasse em paz.
Tinha dúvida entre o Amor e o Carinho.
Os dois seduziam-me. O Carinho sempre com uma xícara de chá, e o Amor com uma taça de whisky.
O Carinho após o eclipse, deitou ao meu lado e sussurrou, sussurou palavras de afeição o resto de uma noite em que o meu pensamento reinava submissamente ao Amor.
Resumindo em palavras, o Carinho, era o equilibrio, o Amor, a sedução.
Posterior àquela noite, senti angústia pela saudade que o Amor deixara. Pedi whisky, e o Carinho não tinha para dar-me. O sentimento de nostalgia me tomou, pedi para que ele fosse embora.
Quando fechei a porta, o Carinho olhou-me como se nunca mais fosse vê-lo. Pela fresta da porta, em meu olhar envergonhado e escondido, senti ainda a melancolia do Carinho que baixou os olhos e disfarçou como se eu realmente não estivesse olhando-o. Fez isso para evitar a minha nítida timidez. Ouvi a porta bater, e alguns passos cada vez mais distantes.
Algumas noites passei sozinha, queria saber do Amor. Onde ele estava? Se estava com outra? Porque me deixara?
Não achava sentido nos pés que caminhavam com meu corpo. Esperei noites por uma mensagem.
Quem me visitara nesses dias todos, foi apenas um velho amigo muito próximo do Amor, chamado Ciúmes. Ele nunca trazia boas notícias, só descrevia dores, aflições, agonias...
Tentei reerguer-me sem o Amor, tentei apreciar a vida sem ele, mas foi ímpossivel enquanto tentei.
Quando pensei em desistir, deitei ao pé da cama e ouvi na contramão o simultâneo riso do Amor, à chegar, cada vez mais perto. Senti o fascínio, aquilo que prometi que não sentiria novamente, aquilo que jurei um eterno nunca mais.
O Amor com sua beleza que caçoava, olhou-me, como se soubesse que eu o esperava.
Após seu olhar frio, disse-me que veio prestigiar face a face a minha escolha errônea. Eu o tinha escolhido. Eu escolhi o Amor ao invés do Carinho.
Tratando-me ainda com deboche, voltou os olhos a observar-me, caída ao pé da cama com lágrimas banhando o rosto. Observou-me ali durante horas, estático, sem esboçar se quer uma expressão. Após o cair da lua silenciou, silenciou o resto de uma noite diante de meus gritos de martírio e arrependimento. Pedi pra que ele fosse embora. Pedi o equilibrio. Pedi o Carinho. Pedi o chá, e o Amor não tinha para dar-me.
Do Amor, recebi o estranho, o desconhecido e a ingratidão.
Saí sem olhar para trás, fui ao encontro do Carinho que majestosamente me aceitou. Prometi que seria só dele, e do Amor não aceitaria sedução, deboche nem ingratidão. Queria mesmo o equilibrio, o chá, queria o Carinho.
Passou três anos até que o Amor bateu em minha porta novamente. Eu sempre soube que ele voltaria, e sabia que nesse dia, ainda não estaria pronta. Ele estava aparentemente arrependido, ao invés de whisky, carregava consigo uma xícara de um café bem negro. Em primeira olhada, expressava amargura.
Suas palavras delicadas mexeram comigo. Não Minto!
Mas em primeiro instante neguei, neguei como quem estivesse saturada do sofrimento. Porém em segundo, entreguei-me, entreguei-me como quem não cansa de sofrer, como quem não tem nada a perder.
O Carinho me deixou.
E daquele café, restou-me um whisky amargo, das delicadas palavras, o desprezo, e da sedução, o engano. Era mais uma vez o Amor.

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